quinta-feira, maio 04, 2006

O Ano do Pensamento Mágico


Imagina que estás a fazer o jantar. Estás preocupada porque a tua filha está em coma, após choque séptico causado por uma pneumonia aguda. Estás tão preocupada e absorta que nem ligas ao barulho seco que vem subitamente da sala.

Descobres então que o teu marido está caído no chão, vítima de ataque cardíaco. Ele vai morrer ainda essa noite. É 30 de Dezembro de 2003.

Dez meses depois, continuas a enfrentar o calvário das idas ao hospital para ver a tua filha em coma.

Do fundo da tua dor inicias então uma viagem. Descobres que, curiosamente, não há muita literatura sobre luto, nada que te ajude a perceber como aniquilar essa dor que te inquieta e destrói aos poucos.

És uma escritora, escreveste Play it as it lays, escolhido como um dos melhores 100 romances dos úlimos 80 anos pela revista Time. Resolves transpôr para o papel toda a tua melancolia, a tua nova vida entrelaçada em pensamentos mágicos e devastadoras revelações dolorosas e sinceras.

És Joan Didion e levas-nos contigo numa viagem comovente, realista, emocionada sem ser piegas, ás profundezas da tua dor, agudizada pela morte da tua filha entretanto.

O Ano do Pensamento Mágico é uma defesa da necessidade do sofrimento e do direito a ele.

Imagina. Não foi contigo.

13 Comments:

At 4/5/06 9:52 da manhã, Blogger Kiki said...

Costumo dizer que tudo tem que ser relativizado..e perante os nossos próprios problemas nunca deveremos esquecer que há pessoas com problemas muitisssimo maiores. Trata-se no fundo de não olhar demasiado para o nosso próprio umbigo.

Obrigada pela boa dica. Vou ler.

Grande beijinho

 
At 4/5/06 1:33 da tarde, Blogger a lice said...

Não conheço, mas fiquei com vontade de conhecer!

Adorei o teu texto, e fiquei preso a ele até ao final!

 
At 4/5/06 1:49 da tarde, Anonymous pequenita (quando o teu corpo e o meu) said...

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca

 
At 4/5/06 2:09 da tarde, Anonymous melguinha said...

Defesa da necessidade do sofrimento e do direito a ele?

Não acha um pouco estranho?

Não será mau para quem já anda muito em baixo?

De qualquer forma é um livro que eu vou gostar de ler com toda a certeza.
Empresta-mo por favor?

Beijinho e dê-me notícias do carrocel.

 
At 4/5/06 3:46 da tarde, Blogger Silver said...

Gosto desta literatura, de onde se tiram lições de vida. Obrigada. bjinhes

 
At 4/5/06 6:25 da tarde, Blogger 125_azul said...

"defesa da necessidade do sofrimento...", dentro do exercício do luto. O luto traz dor,é irrefutável. Na nossa sociedade, com o horror que temos à dor, não permitimos à pessoa enlutada que ela a manifeste, angustia-nos a expressão da dor de outrém. Nesse contexto, sim, a pessoa deve exercer o seu direito à dor, até que o tempo a ajude a desvanecer-se. Só assim será saudável...

 
At 4/5/06 8:44 da tarde, Blogger Sinapse said...

Concordo contigo, 125_azul, a nossa sociedade amordaça-nos o luto. Nós amordaçamos o luto.



... quanto ao livro, obg pela dica.



Beijinho,
Boa noite

 
At 4/5/06 9:45 da tarde, Blogger papoilasaltitante said...

Obrigada pela dica!!
Fazer o luto ajuda-nos a enfrentar a vida apos um desgosto... É absolutamente necessário!
Bjs

 
At 4/5/06 10:10 da tarde, Blogger dakidali said...

Bolas. Só desgraça. Ainda há gente com força. Fiquei curiosa. Vou tentar arranjar o livro.
Beijinhos

 
At 4/5/06 10:47 da tarde, Blogger Tongzhi said...

Já tinha lido qualquer coisa sobre este livro.

 
At 5/5/06 3:49 da manhã, Blogger UrsaM said...

Não conhecia este livro mas concordo em absoluto com seu comentário e com os seguintes.
Acho que a sociedade, em nossos dias, cobra e exacerba uma falsa alegria que torna a vida, ao evitar a dor, morna e tediosa.
Mas não encontras também, seres que cultuam e alimentam a dor... parece que lambem as feridas com certo prazer e retiram as casquinhas para que sangrem novamente? os avessos...

 
At 5/5/06 11:43 da tarde, Blogger Folha de Chá said...

Sim. Esta sociedade esconde a dor em medicação forte de sorrisos forçados. A dor será suavizada se for expressa e gritada, penso eu. Que só posso imaginar muito pouco da dor desta mulher. Muito pouco mesmo. Credo! Que dura dor.

 
At 1/3/07 4:04 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Enjoyed a lot! »

 

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