segunda-feira, abril 24, 2006

Dia da Saudade

Há bem uns trinta anos, um amigo da família, que tinha passado agruras semelhantes, ofereceu-nos um porta-chaves. Era um simples quadrado branco, com um número e letras verdes.

Dizia "24 de Abril, Dia da Saudade".

Eu sei que foi bonita a festa, pá! Disse-me o Chico Buarque.

Eu sei que depois disso, as mães pararam de chorar os seus filhos que morriam ou voltavam estropiados de "lá longe, onde o sol castiga mais". As viúvas e os orfãos também.

Eu sei que foi a única Revolução em séculos, neste mundo, onde não se derramou sangue e se ofereceu flores.

Eu sei que a Liberdade é o tal direito maior a que todo ser humano aspira e tem direito.

Mas que querem? Eu tenho saudades...

De ver os elefantes a beber água no rio ao fim da tarde de cores únicas. Dos flamingos do Bilene.
Do cheiro de mato depois da chuva.

Da Maria que contava histórias para ninar.

De chupar caroço de manga no pé, de apanhar camarão com a toalha de praia em dias de maré quente.

De não ter medo de ser politicamente incorrecta, de que as minhas convicções possam magoar os outros.

De mim, mais pequena, com menos dor e mais sonhos.

De mim sem saudades.

8 Comments:

At 24/4/06 7:50 da tarde, Blogger C_mim said...

Existe sempre um lado certo no avesso e um avesso no lado certo.

Meu pai perdeu emprego com o 25 de Abril porque a empresa foi nacionalizada.

E eu comecei a perder minha infância...

E olhando do ponto onde estamos hoje... Não sei porque não me sinto mais feliz... Continuamos a ser os últimos em quase tudo... e temos futebol... e fátima... e fado...

 
At 24/4/06 7:51 da tarde, Blogger Sinapse said...

Recordar é assim mesmo - um momento imbuído de significados pessoais.

 
At 24/4/06 8:29 da tarde, Blogger papoilasaltitante said...

Mas sabes ...lá longe as coisas eram bem diferentes de cá dentro!!!Por Moçambique e por Angola as coisas eram mais actuais, vocês sofriam a influência da países como a Africa do Sul ... Tenho várias amigas nadas e criadas em Africa e que tiveram adolescências e infâncias bem diferentes das dos meus pais, na metrópole!
O meu pai combateu em Africa, nomeadamente em Angola, andou por lá 2 anos fora os outros dois que serviu por cá, a minha mãe casou por procuração, o meu pai voltou a Angola como civil, por paixão,por fascínio e por reconhecer que apesar da guerra era um país com potencialidades.
Percebo a tua nostalgia, não nasci em Angola por mero acaso da vida,fruto de um ataque de paludismo que deixou o meu pai sem forças para continuar!!

Por isto tudo percebo a tua nostalgia e admiro a tua sinceridade, mas tenho que dizer que o 25 de Abril possibilitou que estivessemos agora a trocar estas opiniões, e que quando não gostamos do Governo tenhamos a possibilidade de eleger outro... e isso, isso tem para mim um valor incalculável!
Por isso ... nós por cá, não temos saudades, entendes?
Beijos

 
At 25/4/06 12:20 da tarde, Anonymous 26 de Abril said...

Apenas posso dizer-te que uma saudade assim, não merecia esta nem qualquer outra revolução, mesmo que sem sangue.

Não deixes de tentar ser feliz.

Mereces se-lo.

 
At 25/4/06 5:34 da tarde, Blogger Pitucha said...

Azulita
O problema não foi o 25 de Abril, mas sim alguns incompetentes e um contexto internacional complicado!
E não obstante não ter nascido em África, a minha família é de lá e tenho a mesma nostalgia que tu tens!
E já lá fui. E espero lá voltar. Com liberdade em todo o lado.
Beijos

 
At 25/4/06 5:37 da tarde, Blogger Bárbara Vale-Frias said...

Como te compreendo! Eu, que vim de lá com 22 meses, que quase nada trouxe na minha memória pueril e que só lá voltei (a Moçambique) em 1998, sinto essa mesma saudade... uma saudade que não sei explicar, que me foi transmitida pelos pais e avós, uma saudade que lhes ficou cravada num qualquer centro nevrálgico.

Quem viveu em África, viveu uma vida que ninguém de cá compreenderá. E mesmo eu, há 8 anos, quando fui conhecer a minha terra, ainda consegui sentir isso.

É o céu, de um azul único, que nos engole; é a paisagem maravilhosa, principalmente em Nampula e junto à Ilha de Moçambique; é a comida, que tem um sabor genuíno, as mangas maduras, a sapateira, o peixe fresco; são as gentes, educadas e de olhar profundo, que não nos vêem como estrangeiros; são as igrejas gigantescas, erguidas no meio do mato, onde as missões fazem tanto pelas populações; é o cheiro daquela terra molhada, quando a chuvas tropicais inundam as picadas, ou o cheiro inconfundível de uma queimada em África!

O 25 de Abril trouxe muita coisa boa. Liberdade, principalmente. Mas muita liberdade - ou liberdade sem responsabilidade - também podem ser um grande mal... Eu, tal como tu, tenho saudade do 24 de Abril :)

Um beijinho grande!

http://cokas.blogspot.com
http://evasoesbarbaras.blogspot.com

 
At 26/4/06 12:47 da tarde, Blogger Folha de Chá said...

Os cravos trouxeram muitas coisas boas, mas também resolveram mal muitas outras. Compreendo a tua saudade. Do irreparável. Do que podia ter sido e não foi. Deixa, alguma razão haveria para o teu regresso. Nem que seja estares aqui, e nós a lermos-te, felizes. :)

 
At 27/4/06 12:20 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Mnina Azul,
deixa-me juntar, 'a talhe de foice', ao que aqui te dizem o que também já disse num blog'amigo

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Sem dúvida, quanto ao que repudias;
mas! considera que 'a descolonização', na forma e no projecto, foi IMPOSTA!
Era preciso correr com os portugueses dali para fora. Era 'muita coisa' para deixar em mãos alheias. O resto foi/é apenas processual...

Infelizmente nunca nos teriamos podido opor. Por falta de força, de poder... tout simplement!


Daí um certo mal estar desfocado que redunda, em geral, num desfiar de queixas 'mesmo ao lado' - misère!
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(Em parte o '25d'Abril' foi feito por/para isso. Sem prejuízo de uma certa urgência local, existente e aproveitada. Nem te passa pela cabeça o que era o Portugal d'antes!)

 

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