quinta-feira, novembro 22, 2007

Crianças especiais


Os meus dias andam particularmente difíceis e longos. Para não fugir à regra, ontem, após mais um dia a bulir no consultório, reunião na Escola da filhota mais velha. Directora de turma, professores, representante dos Encarregados de Educação, representante da Associação de Pais (euzinha), professora de Educação Especial e uma miúda de 12 anos, a Delegada de Turma.

Discutia-se o problema de uma garota da turma que "está ao abrigo do 319" (artigo que visa inserir alunos com dificuldades específicas de aprendizagem em turmas comuns, com curriculuns reduzidos e adaptados).

Porque é lenta, porque não acompanha a turma, porque os rapazes gozam com ela. O relatório da psicóloga diz "défice cognitivo permanente", um dos professores teve a gentileza de "traduzir" por "é atrasada mental, pronto".

As sugestões dos presentes iam no sentido de "era até melhor para ela frequentar uma turma ou uma escola especial, 'tadinha, aqui sente-se humilhada...". Eu e professora de Ensino Especial trocávamos olhares de "tirem-me daqui".

Então, a miúda de 12 anos, Delegada de Turma, disse: "Quando eu andava na Escola primária conheci o Otto. Ele também tinha défice cognitivo e todos gozavam com ele. A minha mãe explicou-me que todas as pessoas são diferentes e todos têm sempre um talento especial para alguma coisa. O Otto era o menino mais meiguinho e com mais paciência para puzzles que eu já conheci. Eu ajudava-o sempre que podia e ele enchia-me de beijos cheios de baba, era um bocado nojento mas eu sabia que era porque ele estava feliz. Também ajudo esta colega e tenho conversado com os miúdos que a chateiam. Sei que nem todos têm uma mãe que os ajude a estruturarem-se para lidar com as diferenças, mas estamos a conseguir melhorar. Acho que ela está a aprender coisas connosco e acho maldade enfiá-la numa sala estranha, longe dos amigos que ela tem. Ela aprende, só que é ao ritmo dela e temos que respeitar isso. Eu voto contra a exclusão dela.

Ela não vai ser excluida. A bold, as palavras exactas que a miúda usou na sua argumentação.



Nota de rodapé: a mãe que ajudou esta miúda a estruturar-se para lidar com as diferenças sou eu. Não importa que a reunião tenha durado mais de 3 horas, ao fim de um longo e cansativo dia de trabalho. Fui-me embora com um sorriso parvo, mas suponho que qualquer mãe iria...

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21 Comments:

At 22/11/07 9:28 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Nem me lembro mais há quanto tempo leio seus posts, mas hoje não pude só ler.
PARABÉNS MÂE!!!!!
Ps: o "sorriso parvo" é a merecida e deliciosa coroa de louros da grandiosa tarefa da mãe educadora.
bjs
Dulce

 
At 22/11/07 10:00 da manhã, Blogger Morgenita said...

Toma, embrulha e vai buscar!
Grande Ana e Grande, Grande tia Arara!

Bjocas,

 
At 22/11/07 12:07 da tarde, Blogger Pitanga said...

A vida é feita de momentos assim. Fizeste um bom "trabalho". Há que que sorrir!

beijos

 
At 22/11/07 12:30 da tarde, Blogger MARTA said...

Grande lição para muitos adultos...
Brilhante..
Quanto ao meu post, dadas as circunstâncias que tu conheces, às vezes sonhar com o George Clooney ajuda-me a manter a esperança...
Beijos
Marta

 
At 22/11/07 2:14 da tarde, Blogger Pequenina said...

Mais uma que hoje não consegue limitar-se a ler....
Muitos parabéns à Mãe! E à Filhe!
Que orgulhosa se deve sentir!

Sentimento de dever cumprido, não é?

Beijinhos
Pequenina

 
At 22/11/07 2:34 da tarde, Anonymous Linda said...

Na Ana cresce gente grande, com um GRANDE coração. Tem a quem sair...
Mil beijos.
Linda

 
At 22/11/07 5:49 da tarde, Anonymous Estrela said...

PARABÉNS!!!!!!!!
Uma mãe realizada penso eu...
Uma menina que soube falar a direito no meio da injustiça de alguns...
Daqui uma delegada de turma com um sorriso de ver que alguém que tem a mesma posição que eu sabe lidar e até dar lições aos adultos...

 
At 22/11/07 8:24 da tarde, Blogger Alessander Guerra said...

E deves sentir mesmo muito orgulho. O mundo só vai andar com respeito às diferenças. Se entrasse eu em uma sala onde fosse necessário desenhar, nem sei de que ordem seria o meu déficit. Cada qual com seus talentos, cada qual com seu tempo, temos todos a contribuir em algo.

até
Alessander Guerra
www.cuecasnacozinha.blogspot.com

 
At 22/11/07 9:16 da tarde, Blogger vih said...

LIIIIIIIIINNNNNNNNDDDDDDDDDDDOOOOO.
Mais uma vez se provou o que sempre se preveu: menina de cabeça limpa e apologista de diferenças. Tal filha, tal mãe. Ainda bem que já começou a mudar e ainda dizem mal da juventude.
Um grande beijão para a Ana do "tio" Amilcar.

 
At 22/11/07 10:41 da tarde, Blogger Hindy said...

Muito bem! Grande exemplo!

Beijinho hindyado

 
At 22/11/07 11:23 da tarde, Blogger Ka said...

Os adultos or vezes substimam as crianças...que por vezes os conseguem desarmar :)...foi o caso e só tens de estar orgulhosa pelo trabalho feito enquanto mãe.

Muito obrigada pelos parabéns.
Gostei do blog e tenciono voltar, posso?

Beijinho e uma boa noite

 
At 23/11/07 12:10 da manhã, Blogger Madalena said...

Eu também estou orgulhosa de ti, Azulinha, e da tua filha e do teu trabalho a moldar o coração e o pensamento dos mais pequeninos. Também eu tenho vergonha do professor ter dito o que disse. Tenho uma tentação muito grande em desculpá-lo também pois hoje em dia andamos a ser muito batidos por todos os lados e depois "aparvalhamos" assim, da forma mais errada que há!!!!
Beijinhos mistos, pois, em tons de Azul, claro!

 
At 23/11/07 12:13 da manhã, Blogger Luisa Hingá said...

Que bom é ler artigos como este.
Beijinhos

 
At 23/11/07 1:05 da manhã, Blogger Sinapse said...

:)) estou comovida

 
At 23/11/07 4:31 da manhã, Blogger Angela said...

Como é que se pode conviver com pessoas tão "especiais" como você e esta princesa Ana?
Tens que ter paciência com nosso déficit!!!
Mais um para o livro! Com os olhos a marejar, envio meu respeito e admiração às duas!

 
At 23/11/07 7:26 da manhã, Blogger AEnima said...

Eu ja estava toda orgulhosa (ao ler o texto) por haver uma miuda de 12 anos com mais inteligencia e sensibilidade que qualquer adulto. Ja estava aqui a dar vivas por dentro: "Portugal nao esta morto... olhem para esta miuda!".

Nao me espanta de todo que seja a Ana. Parabens! Estou muito tocada.

 
At 23/11/07 9:11 da manhã, Blogger 125_azul said...

Correcção, porque a Madalena e muitos professores que respeito e admiro merecem: Relendo o texto que escrevi com muita emoção, percebo que ficou a impressão que TODOS os professores presentes desejavam excluir a menina. Não é verdade. Foi da representante dos encarregados de educação que partiu a sugestão. Não foi por mal ou por preconceito, foi por acreditar que assim a menina ficaria mais protegida. Esta sala é muito difícil, em 18 tem 10 alunos com graves problemas familiares que se refletem em bagunça e indisciplina, e alguns professores também se sentiam mais confortáveis se não tivessem o problema da garota para lidar.
Quanto ao professor que traduziu a questão do "défice", fê-lo por impulso e creio que o objectivo era facilitar a compreensão da questão. No total, acho que estavam na reunião pessoas esclarecidas e decididas a dar o seu melhor, como se comprovou nas soluções adoptadas para este e outros assuntos igualmente difíceis.
Mas que a minha filhota marcou pontos no meu coração, lá isso...
Beijinhos e grata a todas as mães (especialmente à Linda, que é a mais recente) que se emocionaram comigo.

 
At 23/11/07 2:45 da tarde, Blogger Mãe Frenética said...

Eu tb saio daqui com um sorriso parvo... pq pode ser q com o tempo hajam mais miudas de 12 anos, hoje, com filhos amanha, e q tornem o mundo mais justo para todos.

 
At 25/11/07 11:47 da tarde, Blogger Carlos Malmoro said...

Como Ana´s assim e mães assim, Portugal tem o fututo estruturado. De certeza. ;)
Beijocas

 
At 25/11/07 11:47 da tarde, Blogger Carlos Malmoro said...

* Com Ana´s assim..

 
At 27/11/07 11:45 da manhã, Blogger Kalinka said...

EU LI...
CHEIA DE RAIVA umas vezes e...
de lágrima no olho ao ler o que disse a menina de 12 anos.
Chego à nota de rodapé e...
a mãe que ajudou esta miúda a estruturar-se para lidar com as diferenças sou eu. Não importa que a reunião tenha durado mais de 3 horas, ao fim de um longo e cansativo dia de trabalho. Fui-me embora com um sorriso parvo, mas suponho que qualquer mãe iria...

Minha querida, sei o que deves sentir...de alegria e orgulho nessa tua menina e na forma como a estás a educar, mas...INFELIZMENTE nem Mãe educadora me deixaram ser, daí muitas das minhas mágoas...

Trabalhei num Jardim de Infância e na sala dos 4 anos tivemos nessa turma, 3 crianças com problemas, 2 eram mongolóides, ou seja, com trissomia 21 e a outra era um menino paraplégico, estavam inseridos numa turma normalíssima e era gratificante ver a interajuda de uns com outros.

 

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