Nós e o Piano

A Inês sai de casa para a Escola todos os dias carregada de tralha, parece o preto da Casa Africana. É a mochila da Escola, a da natação e o cesto da comida, obrigatórios; o Roo, objecto de transição que ela carrega para todo o lado desde que o irmão nasceu, mais uma malinha com missangas para fazer colares no intervalo, mais plasticina, mais livrinhos de pintar, mais, mais, mais...
Invariavelmente lá vão caindo coisas ao chão e a irmã vai atrás a apanhar e a resmungar.
Hoje foi assim:
Ó Inês, não há pachorra. Não podes trazer tanta coisa para a Escola todos os dias. A Escola é para estudar, não é para brincar. Só falta levares o piano!!!
Ana, retruca Inês calmamente, desculpa lá, mas nós não temos piano!
Pois não temos e a culpa é tua! A mãe não compra um piano por isso mesmo. Se tivéssemos, lá ias tu, todos os dias, com a gaita do piano às costas! Não temos nem vamos ter!
Verdade mamã?
Nãooooo, Inês, responde a Ana antes que eu possa dizer alguma coisa (a esta altura já estava perdida de riso). Isto é uma metáfora!
Ó Ana, grita a Inês já irritada, o que é metáfora? Eu não sei nada disso. Já estou toda baralhada com isso do piano e olha, mesmo se nós tivéssemos um eu não podia levar para a Escola. Pensas que eu sou burra? Eu sei que um piano é muito pesado! Quer dizer, se fosse de brinquedo dava. Mãe, compras um piano?
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